Documentos em posse da redacção do Folha 8 revelam contornos de um alegado esquema de promessas financeiras não cumpridas, negociações paralelas e possível uso indevido do nome da Federação Angolana de Futebol (FAF), colocando sob escrutínio a atuação de figuras ligadas ao futebol nacional. No centro das denúncias de agentes desportivos internacionais está o vice-presidente da FAF e antigo capitão dos Palancas Negras, Cali Alias Gonçalves Alonso Manuel.
Por Geraldo José Letras
De acordo com os documentos analisados — que incluem comunicações entre intermediários, propostas contratuais e registos de negociação — o processo teve início com contactos estabelecidos entre Cali e agentes internacionais ligados a treinadores estrangeiros.
Entre os nomes envolvidos surge o técnico francês Patrice Beaumelle, com quem terá sido discutido um acordo preliminar de dois anos para orientar a seleção nacional. As informações constantes dos documentos indicam que os valores inicialmente apresentados rondavam os 200 mil dólares, incluindo comissões destinadas a intermediários. Contudo, numa fase posterior das negociações, a proposta terá sido reduzida para cerca de 15 mil dólares, sem justificação clara.
A alteração substancial dos termos financeiros terá motivado a rejeição imediata por parte do agente licenciado pela FIFA, Namukeh Tunkara, que considerou a nova proposta incompatível com o acordo previamente discutido.
Fontes ouvidas pelo Folha 8 afirmam que, a partir desse momento, instalou-se um clima de desconfiança entre as partes, culminando na não formalização do contrato e no alegado incumprimento de compromissos financeiros assumidos verbalmente.
Os documentos em posse da redação sugerem ainda a existência de promessas de pagamento que não chegaram a ser concretizadas, o que poderá configurar responsabilidade contratual e, em determinadas circunstâncias, ilícitos de natureza penal.
Num desenvolvimento considerado inesperado pelos agentes envolvidos, o nome do treinador senegalês Aliou Cissé passou a ser associado à seleção angolana, fora do circuito negocial inicial.
Para os denunciantes, esta mudança poderá indicar a existência de canais paralelos de negociação, levantando dúvidas sobre transparência e eventual exclusão deliberada dos intermediários que participaram nas fases iniciais do processo.
Especialistas em direito consultados por este jornal admitem que, caso os factos venham a ser confirmados, poderão estar em causa várias figuras jurídicas previstas no ordenamento angolano e no direito desportivo internacional, nomeadamente:
Burla, caso se prove a existência de promessas feitas com intenção de obter vantagens indevidas;
Abuso de confiança, se tiver havido entrega de valores para fins não concretizados;
Falsa representação, pelo eventual uso indevido do nome da FAF sem autorização formal;
Responsabilidade contratual, decorrente do incumprimento de acordos estabelecidos.
O caso poderá ainda conhecer desenvolvimentos junto de instâncias internacionais, incluindo o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS), caso os agentes lesados avancem com queixa formal.
Apesar dos elementos já reunidos, persistem várias zonas de sombra que exigem esclarecimento, nomeadamente a existência de contratos formalmente assinados, comprovação de transferências financeiras ou promessas documentadas, papel efetivo da direção da FAF no processo, eventual conhecimento institucional das negociações conduzidas, ausência de uma posição oficial da federação contribui para o adensar das dúvidas.
Analistas desportivos alertam que a confirmação de tais práticas poderá ter consequências graves para a imagem da Federação Angolana de Futebol, nomeadamente: Perda de credibilidade junto de agentes e treinadores internacionais; Dificuldades acrescidas em futuras negociações; Possíveis sanções ou escrutínio por parte de organismos internacionais; Num contexto em que Angola procura afirmar-se no panorama futebolístico africano, casos desta natureza podem representar um retrocesso significativo.


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